terça-feira, 23 de maio de 2017

A CURA VEIO DO CHIFRE

Praia (?) do Saco da Ribeira - Foto: Reinaldo Rodrigues
     


Praia do Saco da Ribeira - 1945 (Ubatuba Histórica)


De vez em quando, relendo uns textos antigos, acho por bem divulgá-los. É o caso deste que relata a importância da sabedoria popular, da vida difícil justificando que a necessidade é mãe da criatividade.

            Os mais antigos falam das dificuldades dos “tempos d’antes”. É comum ouvir algo sempre assim, ou parecido com isto: “Antigamente tudo era dificultoso; não tinha estrada. Pra ir por mar dependia do tempo”. Eu fico sempre imaginando a situação quando alguém ficava doente! Talvez fosse por isso que quase todo mundo sabia um monte de remédios caseiros; tinham na memória nomes de plantas, simpatias e outras coisas do gênero. Também havia elementos estranhos, bizarrices no dizer de hoje. Você já imaginou chá feito a partir do cupinzeiro? Ou do picumã e do colar de capiá? E o que dizer do fumo com urina para curar frieiras? Porém, o que mais me intrigava era ver em quase todas as casas, pendurado nas travessas, chifres. Eles eram muito usados: geralmente depois de torrado e raspado, o pó era usado para combater uma série de doenças, principalmente aquelas relacionadas a vermes. Na casa do meu avô Armiro tinha dois: um curtinho, queimado pela beirada; outro novinho, sem uso. Acho que servia como sobressalente, para substituir o primeiro que já estava próximo do fim.  Então, lá vai o causo: 
       Armindo, pescador do lado do Norte, num tempo de mar grosso, precisou vir às pressas na cidade. Além de ter de resolver algumas coisas, tinha um filho adoentado sem que nenhum chá fizesse efeito. Andava pelo centro apressado, cumprimentando os conhecidos e prestando atenção nas novidades. Nisso encontrou um compadre, justamente o padrinho do filho que não passava bem. Foi logo lhe informando:  “Ó compadre Zé Mesquita, foi bom encontrar o senhor! O seu afilhado está muito doente. Ainda agora estou indo para a farmácia do Filhinho para comprar um remédio. Tomara que ele tenha um bom, porque lá em casa, desconfio eu, já se tentou de tudo. A mulher já começa a ficar desesperada!”. O outro, meio sem jeito, se desculpou dizendo, como se devesse alguma coisa:  “Eu devo cortar banana nesta quinzena, mas antes do tempo da tainha eu vou até a vossa casa ver o menino. Por enquanto não posso fazer nada; só rezarei para que Deus olhe por ele, por nós todos”. Despediram-se; cada qual tomando o seu rumo.
            Depois de muitos meses, quando o Zé Mesquita, um bom pedreiro, morador da praia da Fortaleza, até tinha se esquecido do afilhado doente, novamente os dois compadres se encontraram perto da Mercearia Paulista. Era tempo de Festa do Divino, mas a tainha já nem era tanta. O coração da cidade era só enfeite: tudo tinha a cor encarnada e fitas coloridas. Na porta da igreja – a matriz - ficava a guarda da bandeira, onde os devotos paravam para beijar a pombinha, se demorando na admiração dos enfeites do interior do templo.  Dito Bento, consertando bicicletas ali perto, dizia: "É a beijação da pombinha sagrada, onde as pessoas prendem suas fitas. Tem fila o dia inteiro na porta da igreja". Ali se respirava o sagrado. O assunto dos dois compadres sobre a festa do momento logo se esgotou. Então, meio sem jeito, o compadre que morava mais perto da cidade perguntou do afilhado: “O menino está bom, melhorou bem?”. Todo entusiasmado o pescador respondeu:  “Está uma maravilha! Curadinho, com a graça de Deus!”.  “Ainda bem!” – Suspirou o padrinho desnaturado. E continuou:  “Quer dizer que o Filhinho acertou no remédio? Qual é o nome?”. De pronto o Armindo respondeu cheio de satisfação:  “Ah! Não foi o Filhinho não quem indicou o remédio”. Cheio de orgulho arrematou a conversa:  “Eu tirei da cabeça: peguei um chifre, torrei, raspei e dei na água morna para tomar. Foi tomar e curar; uma luz que se acendeu! Não se deve esquecer das coisas dos antigos, dos remédios que eles conheciam!”.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

MEU TIO SALOMÃO

Tio Salomão e Tia Umbelina - Aparecida, 1954 (Arquivo Zamberto)

                Nhonhô Armiro, órfão logo cedo, trabalhando em Santos ajudou a mãe a criar os irmãos Cláudio e Maneco. Depois se casou duas vezes: do primeiro enlace nasceram Vovô (José Armiro) e Tio Genésio. Em seguida, viúvo bem moço, se apaixonando por uma negra caiçara da Ilha do Mar Virado, vieram: Salomão, Maria, Clemente e Salvador. Se vingaram outros eu não sei. Só sei que o Nhonhô era gente muito decente, fundador da Capela São João Batista, da Praia da Fortaleza. Ah! O primeiro presente que eu recebi dele foi uma enxadinha, dessas que já estão redondas de tanto afiar. Na verdade, o mano Mingo recebeu outra igual, na mesma ocasião. Ficamos alegres; logo partimos para fazer caminhos no meio do capim melado, nas tigueras. Vovô dizia, ao ver nossos vestígios; alertava nossos tios: “É aceiro das crianças. Não intiquem com eles”.    Desses filhos do Nhonhô, somente o Tio Salomão, "o mais bonito da praia da Fortaleza" viveu mais distante. Depois de passar pelas praias do Flamengo e da Ribeira, foi se estabelecer na capital paulista. E lá, os saudosos Tio Salomão e Tia Umbelina esgotaram suas vidas. Agora, recebendo uma fotografia do casal Salomão e Umbelina, devo escrever algumas lembranças. Agradeço ao primo Zamberto pela gentileza da imagem.

                “Naquele tempo as pessoas namoravam cedo, logo estavam esperando filho” – Assim dizia a Tia Maria Mesquita, casada com o Tio Genésio. “Todo mundo era pobre, só se vivia da pesca e da roça. O compadre Armiro morava no meio da praia; a gente tinha casa no Canto do Cambiá, onde hoje é o Pierre. Aí aconteceu do Salomão se engraçar com a Umbelina: eles se encontravam no serão, conversavam no jundu e passeavam pelo lagamar. Não demorou muito para que a mana engravidasse. Ela tinha por volta de treze anos. Conversaram e acertaram de ir morar na casa do compadre Armiro. Não foi um bom começo, pois naquele tempo valia o seguinte ditado: ‘Para se casar é preciso ter casa de telha e uma canoa’. Sofreram bastante, mas se acertaram e hoje vivem em São Paulo, com as crianças já homens e mulheres formadas. De vez em quando eles nos visitam. Eu sinto muita saudade deles”.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

LIÇÃO À BEIRA-MAR

O Mano Mingo recorda o nosso tempo, quando aprender as letras foi a grande revolução em nossas vida, depois da herança cultural de tantas gerações entre a serra e o mar. Pelos livros, tantos mundos apareceram em nossas vidas de pequenos caiçaras. Quer mais? Vai ler: barbatuba.blogspot.com.br


























Desde menino,

quando faltava livro em casa,

eu ia ler o céu

deitado na Praia da Fortaleza.

E foi assim que fiquei alfabetizado

no voo da fragata

que percorre meio mundo

no sopro da corrente de ar,

aprendi que a nuvem espinha de peixe

é a vanguarda da frente fria

e assisti muitas vezes o desenho animado

de bichos, pessoas e castelos

que são feitos e desfeitos no céu.

Eu aprendi a viver nas nuvens

desde quando era menino.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

HISTÓRIA DE AMOR

Juventino, Porfírio, Sérgio e Serginho (Arquivo Fátima)

Dona Clície

               A tradição oral dos caiçaras hoje se encontra enfraquecida, mas houve um tempo em que as rodas de causos no jundu, as histórias de serão e as prosas em família testemunhavam a nossa cultura e a reconstruíam a cada dia. Ou seja, alimentavam nossas almas. Meus filhos (Maria Eugênia e Estevan) carregam os nomes dos bisavós que mais contavam histórias. Assim nos formaram! Alguém duvida?
               Outro bom contador de histórias foi o saudoso Tio Izídio, um dos descendentes do Velho Antunes de Sá, da Fazenda Caçandoca. Na verdade, ele era casado com a minha tia-avó Luzia. Numa ocasião, tendo a atenção dos mais novos, assim começou:

               “Nós somos daqui desde muito tempo. Meu avô, o Velho Antunes de Sá comprou este lugar do Granadeiro, o fazendeiro da praia da Mococa. As terras da Fazenda Caçandoca começam na Pedra da Cruz, que fica na costeira da Maranduba, debaixo do Morro do Cemitério, depois corre pelo espigão da Serra da Caçandoca até na divisa com a Serra da Lagoa. Dali desce de novo para a costeira, na Pedra do Um, a outra divisa.
               Esse meu avô, o Velho Antunes, tinha uma filha muito bonita já em época de se apaixonar. Uma escrava bem jovem lhe servia de ama. Dizem as histórias que essa cativa gostava muito da sinhazinha. Era tanta a estima que até escondia do senhor a paixão da moça pelo filho do fazendeiro da praia da Lagoinha. Foi por isso que, no dia que descobriu a respeito do romance, o fazendeiro se preparou para castigar a ama que lhe omitiu a informação. Ao perceber que seria espancada, a negrinha correu pela casa, indo para a parte de cima do sobrado que ficava no areão [da praia da Caçandoca], na beira do rio. Acabou ficando encurralada, com o fazendeiro quase lhe alcançando. No desespero se jogou pelo janelão em direção ao terreiro. Foi quando aconteceu uma coisa fabulosa: o vestido se espalhou, igual a uma flor aberta, amortecendo a sua queda. Então ela saiu correndo pelo caminho bem conhecido da costeira do Pulso. Já era serão, escurecia, mas mesmo assim foi perseguida por gente da fazenda.  O que lhe valeu de esconderijo foi um oco numa grande timbuíba que existia quase chegando na Pedra do Cruzeiro, onde mais tarde morou o Velho Salomão. Só na madrugada criou coragem e foi bater na porta da fazenda da Lagoinha, onde morava o rapaz apaixonado pela sinhazinha. Foi acolhida, explicou tudo. Logo foi comprada pelo fazendeiro. Mais tarde, conforme a história prova, deu certo o namoro dos dois jovens. Após o casamento, a sinhazinha foi morar na Fazenda da Lagoinha e a escrava, sua antiga ama, continuou lhe servindo. Mais tarde ela também encontrou um parceiro e teve filhos. Gertrudes, Porfírio, Juventino e outros vieram do tronco desse casal de escravos”.

               Agora eu acrescento à fala do Tio Ezídio: 
            Depois Juventino se apaixonou por Dona Crície e.... Maria de Fátima, Serginho e tantos outros descendem dessa fugitiva da Fazenda Caçandoca. Não é uma bela história de amor?

domingo, 30 de abril de 2017

CERTIDÃO DE NASCIMENTO

Capa do folheto 500 anos (Arquivo JRS)


               Neste dia, 1ºde maio, além de celebrarmos todas as lutas e conquistas da classe trabalhadora, comemoramos o nascimento oficial do Brasil. Ou seja, foi nesta data, em 1500, que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei de Portugal (D. Manuel I) a respeito do achamento desta terra e de suas características. Por isso, selecionei algumas passagens desse documento, reforçando que nós, caiçaras, estamos desde então presentes e numa constante re-construção neste chão.

                    Senhor:
               Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que para o bem contar e falar – o saiba pior que todos fazer.
               Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.
               A partida de Belém [porto de Lisboa], como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março [...] E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas da Páscoa, que foram 21 dias de abril ... [...] Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras terras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs o nome – o MONTE PASCOAL e à terra – a TERRA DA VERA CRUZ.

            Ao desembarcarem:
           O Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho [...] E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali haviam dezoito ou vinte homens.  Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.

               Descrição das pessoas que acharam esta terra antes dos portugueses:
               A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas, e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Trazem os beiços furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros [...]. São encaixados de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber. Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas.

                   Querendo saber mais dos habitantes:
               Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram lhe um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram com que espantados.
               Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como que dizendo que daria ouro por aquilo.

               Lógico que a carta não poderia deixar de citar as mulheres! Se encantaram!
               Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos e pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. [...] E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhes tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela.

                       Era preciso rezar diante disso tudo:
               Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ouvir a missa e pregação naquele ilhéu. [...] E ali com todos nós outros fez dizer a missa, a qual foi dita pelo padre frei Henrique [...] e ouvida por todos com muito prazer e devoção.

               Seguiriam para as Índias, mas deixariam dois degredados [excluídos da sociedade portuguesa] para obterem mais informações na convivência por tempo indeterminado:
               Muito melhor informação da terra dariam dois homens destes degredados que aqui deixassem.

               Mas todo mundo queria se deslumbrar um pouco mais antes de prosseguir a viagem:
               Alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. Alguns aguardavam; outros afastavam-se. Era, porém, a coisa de maneira que todos andavam misturados. Eles ofereciam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que lhe davam.

                 Outros detalhes da terra:
               Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas, não mui altas, em que há muito bons palmitos.  Colhemos e comemos deles muitos.
               Foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitânia. Eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoada altura; todas duma peça só, sem nenhum repartimento, tinham dentro muitos esteios; e, de esteio em esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e outra no outro.

               Desde o começo os primeiros habitantes eram prestativos, queriam agradar:
               Depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos; e misturaram-se tanto conosco que alguns nos ajudavam a acarretar lenha e meter nos batéis.

                     Tinham interesse por novidades:
               Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E, creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro [...] porque eles não têm coisas que de ferro seja, e cortam suas madeiras e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas. E era já a conversação deles conosco tanta, que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

                      Outras possibilidades:
               Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença. [...] Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da sua salvação. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim.

               A mandioca ainda não lhes foi apresentada. Deram-lhe um nome que conheciam de outras paragens:
               Eles não lavram, nem criam [...] Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam.

              Mais gente queria ficar na terra:
               Creio, Senhor, que com estes dois degredados ficam mais dois grumetes, que esta noite se saíram dessa nau de esquife, fugidos para a terra. Não vieram mais. E cremos que ficarão aqui, porque de manhã, prazendo a deus, fazemos daqui a nossa partida.

                Enfim...
               Não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro [...] Porém, a terra  em si é de muito bons ares, assim frios e temperados [...] Águas são muitas.

               Ah! Ia me esquecendo! Antes de finalizar a Certidão de Nascimento do Brasil, Pero Vaz de Caminha pede um favor político: 
               E pois que, Senhor, é certo que, assim  neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge Osório meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê. ObservaçãoPara ser deixado numa ilha, o genro não devia ser boa coisa, mas com apadrinhamento político se consegue muita coisa. E continua sendo assim até hoje!

            Beijo as mãos de Vossa Alteza.
           Desse Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro de maio de 1500.


               

terça-feira, 25 de abril de 2017

AS PRIMEIRAS MADRES EM UBATUBA (II)

Marco da Praça, no Ipiranguinha (Arquivo JRS)

               As primeiras povoações brasileiras nasceram sob a moral religiosa. Ubatuba, fundada em 1637, não poderia ser diferente. No bairro do Ipiranguinha, onde moro há mais de 20 anos, também tem o mesmo princípio formador: foi uma religiosa (Irmã Sofia) que, em 1965, iniciou um trabalho muito importante nesse bairro, convidada por um professor que professava outra religião. “Era crente”. O trabalho dessa madre foi tão marcante que até lhe homenagearam com uma praça.  Mas o legal é escutar o depoimento dessa mulher: “O professor Fernando fundou uma escolinha no Ipiranguinha e me convidou para ensinar o catecismo às crianças das famílias católicas. No começo eu ia a pé, mas logo compramos uma Kombi para facilitar o trabalho”.

               A ação da Irmã Sofia inicialmente era com as crianças, cultivando nelas propósitos morais: não beber, não fumar, se comportar bem na escola, respeitar os mais antigos etc. Em seguida, auxiliada por senhoras católicas (Dona Maria Guatura e Dona Iracema), Irmã Sofia incentiva, em mutirões, a construção de um Centro Social. O terreno foi doação do Senhor Acácio à Congregação das Cônegas de Santo Agostinho. Porém, Irmã Sofia, já chamada por todos por Madre, achou por bem não ficar com o terreno. “Nós já estávamos com muito terreno na cidade. Assim, doamos aos frades conventuais franciscanos, cujo vigário era Frei Francisco Calderoni. Mais tarde esse religioso comprou mais três ou quatro terrenos  para fazer uma pracinha em frente à igreja para o povo se reunir em dias festivos”.    
     
        Nessa Obra Social as pessoas aprenderam artesanatos (costura, crochê...) e ofícios (pintor, encanador, eletricista...) e receberam aulas de catecismo. Por volta de 1980, quando eu fui conhecer o bairro, encontrei além da Madre Sofia, o professor Pedro Paulo Scandiuzzi e o leigo Carlinhos, um caiçara natural da Ilha do Promirim. Que comunidade bonita! Posso dizer que esses três se entregavam ao trabalho com o apoio das pessoas de boa vontade do bairro. Assim, com o incentivo dessa religiosa, foi fundada a Sociedade dos Vicentinos e a Sociedade Amigos do Bairro.  Mais tarde, conforme depoimento do Seo Benedito, assumiram a luta para se criar uma escola no bairro. “As crianças estudavam no salão do Centro Social, mas eram muitas para o pequeno espaço. Assim fomos atrás das autoridades. Eu viajei muitas vezes até Caraguatatuba por conta disso. Em São José dos Campos, conseguimos um encontro com Dr. Chopin Tavares de Lima, da Educação, que nos garantiu a construção de uma escola. Assim, desde meados da década de 1980, temos a Escola Idalina do Amaral Graça”. Desse modo surgiu e cresceu o bairro do Ipiranguinha!


               Hoje, ao passar pela Praça da Igreja, ao ler os dizeres do marco, é bom saber que nós temos o dever de cultivar a memória de Madre Sofia e de tantos pioneiros desse nosso lugar. E como se faz isso? Com uma boa educação!

sábado, 15 de abril de 2017

MÁQUINA DO TEMPO

Lendo para as crianças (Arquivo JRS)


               Hoje comecei o dia lendo Rubem Alves. Tem uma passagem que é muito interessante, sobretudo quando nos identificamos como bons escutadores de histórias que também gostam de contar causos. É assim: “Já houve um tempo em que fui criança [...] O tempo é isto: o poder que faz com que coisas que existem deixem de existir para que outras que não existam, venham a existir [...] Eu posso passear no seu mundo, que existe. Mas eu gostaria que vocês passeassem no mundo da minha meninice, que não existe mais. Acho que vocês gostariam, porque era um mundo tão diferente...”. E, seguindo a narrativa, ele diz que “é preciso embarcar numa Máquina do Tempo”, que ela “está dentro da nossa cabeça”. “Ela se chama imaginação”.  Lindo, né?!?
               Eu gosto de ouvir coisas atuais, mas adoro quando contam situações vivenciadas em outros espaços e em outros tempos. Ah! Quantos causos! E quando eles vinham sob luz bruxuleante, de lamparinas que pareciam estar nos últimos suspiros, nos convidando para dormir?!? Coisa boa demais!!! E quando eram histórias de assombração, que nos arrepiavam por toda a narrativa?!? Pior era depois ter de sair para o terreiro, pois na minha meninice não havia banheiro dentro de casa. A solução era o cisqueiro (“usar o mato”) ou o penico. Olhar aquela escuridão, os salpicados pontos luminosos dos vaga-lumes... escutar os sapos, a nimbuias e toda a passarinhada da noite era alimentar a nossa imaginação medrosa. Mas era preciso se superar diante da pergunta-ordem da mamãe: “Todo mundo já mijou antes de ir pra cama?”.
               Num desses dias, comentando uma situação de medo de escuro, afirmei que as assombrações do meu tempo de criança desapareceram depois que chegou a luz elétrica. A nossa imaginação perdeu força com essa tecnologia, essa “facilidade da vida”. Coitadas delas (das assombrações)! Ah! Mas também apareceu a televisão substituindo os contadores de causos, de histórias que embalavam nossas vivências! E hoje, aparelhos mais modernos enfeitiçam nossas vidas, transferem os prazeres para outras esferas, nos tornam mais egoístas, indiferentes para esse mundo tão próximo, de pessoas tão concretas. A função deles? Criar outras necessidades (comprar computadores e outros equipamentos de última geração,  games etc.), gerar outras dependências que garantam os lucros de uma mínima parcela da população, deixar a autonomia mais longe no horizonte da utopia!

               Ontem encontrei o pai da Tainá, uma ex-aluna que não vejo há mais de dez anos. “Ela se casou, vive na Islândia. Eu tenho uma linda netinha”. E já foi puxando, do celular, uma série de imagens de uma terra muito distante de Ubatuba, onde Tainá nasceu e se criou. E, empolgado, me mostrou desenhos de animais e plantas tropicais: “São trabalhos, aquarelas da Tainá. Ela agora está aqui. Na semana que vem certamente você a verá, pois ela vem nos fazer uma visita”. E a minha Máquina do Tempo é ativada pela menina tranquila, estudante, num tempo que a Internet ainda era para poucos a grande novidade.